sexta-feira, 5 de março de 2010

Cerveja e mulheres


Que aguardente, que nada! Cerveja é a bebida nacional. Recentemente, uma pesquisa de alcance nacional revelou que 60% do que os brasileiros bebem regulamente é cerveja. A preferência pela bebida alcança a todos: homens, mulheres, gente urbana, gente que vive no interior, de norte a sul.(Laranjeira, R. Padrão do uso de álcool..., Revista Brasileira de Psiquiatria, nov.2009)
Com tantos apreciadores fiéis no país, uma empresa vem tentando quebrar a hegemonia da Ambev, que detém as marcas mais conhecidas – Skol, Brahma e Antártica – através de agressiva campanha publicitária de uma de suas marcas. Uma atriz (ou será uma celebridade?) norte-americana foi contratada. Fez pose no carnaval, tirou fotos entre famosos e quase-famosos nacionais e estrelou um comercial veiculado na TV. Neste ponto, surgiu a polêmica que alimenta os jornais nos últimos dias. De um lado, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres queixa-se do apelo excessivamente erótico da campanha, no que foi apoiada pelo Conar; de outro, articulistas dos jornais abandonam a modorrenta cobertura da disputa presidencial para criticar veementemente o que consideram uma intromissão indevida no direito de expressão. Nunca vi tantos jornalistas – todos eles homens – tão indignados com o que consideram ser o supremo direito de associar cerveja a sexo e à possessão do outro(a).
Diria eu, que sei um pouco sobre a história da indústria no Brasil: que novidade! Lá pelos anos 1920, quando as cervejarias se empenhavam para se afirmar na opinião pública como produtoras de bebida legítima, pouco alcoólica e até nutritiva (para horror dos médicos temperantes), as grandes cervejarias de baixa fermentação tinham algumas marcas de nomes apelativos. Eram bem poucas as empresas dignas de serem chamadas indústrias, então: Brahma, Hanseática e Polar, no Rio de Janeiro; Guanabara, Antártica e Germânia, em São Paulo; a Ritter do Rio Grande do Sul e outras menores no Paraná. Vê-se que os nomes das empresas remetiam à tradição cervejeira alemã, à família dos fundadores, ou faziam alusão à forma como a bebida era apresentada aos consumidores – gelada. Ah! E a Brahma? Esse nome ninguém conseguiu decifrar a origem. O mistério morreu com o fundador, o suíço Villiger.
Cada uma dessas empresas tinha uma linha de cerveja popular. Entende-se por popular, o trabalhador que ganhasse o bastante para pagar $300 réis a garrafa colocada em um bar. Uma cerveja, como a Fidalga, da Brahma, e considerada como de primeira qualidade, custava cerca de 30% a mais. Além do preço menor, as cervejas populares, chamadas de terceira qualidade, tinham menor teor de mosto, isto quer dizer, para quem não conhece o glossário cervejês, que tinham menor teor de matéria prima. Desenhadas assim, para atender ao bolso e ao gosto dos consumidores urbanos – operários, trabalhadores do comércio e de serviços – as cervejas de terceira tinham também nomes inspiradores. A Brahma tinha a Cavalleira, lançada em 1912, cuja propaganda mostrava uma corista loira vestida com um corselete, montada sobre uma garrafa. Também tinha a Negrinha e a Tetéia, ambas registradas em 1914. Em 1945, a Brahma registrou a Negrita e levou para seu estoque de marcas a Mulatinha, registrada pela cervejaria Guanabara, em 1923. Esta cervejaria, que ficava na cidade de São Paulo, foi uma das muitas que a Brahma comprou ao longo do tempo. Outra marca da Brahma que também faz alusão à figura feminina era a Ella, registrada em 1910.
A lista de nomes de indiscutível apelo sexual e até racial só cresceria se conhecêssemos os registros de marcas das outras cervejarias do país com a mesma sistematicidade. O que mencionamos aqui serve de exemplo de uma prática de mercado com o propósito claro de agradar aos consumidores masculinos. Sim, porque ao tempo do vovô, mulheres não freqüentavam bares, a não ser que vivessem da noite. E também não bebiam cerveja da mesma forma como fazem hoje. A bem da verdade, bebiam, sim. Mas era a nutritiva e tonificante Malzbier, doce e apropriada às lactantes.
Também não havia resistência a essas práticas. As feministas estavam muito ocupadas em conquistar o direito de votar. Se já votassem, é possível que levantassem a voz para se queixar do mau gosto das propagandas de cerveja popular então.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Uma quadra em Brasília



É sempre assim depois de uma chuva. Periquitos vem de outro lugar, talvez do Lago Norte, e vem fazer confusão nos coqueiros que restam na quadra. Procuram pelas florzinhas, aparentemente saborosas. Voam de uma árvore a outra enquanto conversam entre si fazendo barulho.
Observo-os da minha janela, onde está a mesa de estudo e de empilhamento de papéis pendentes de exame. Não se importam com isso, talvez nem percebam tão entretidos estão com as florzinhas, ou bichinhos da árvore.
Enquanto houver coqueiros por aqui, haverá periquitos. Até que algum grupo de moradores decida que árvores são ameaças e solicitem a ação impiedosa da Novacap para colocá-las à baixo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cerveja e cultura


Existem os produtos e existem os seus usuários. Se são muitos e fiéis, acabam por desenvolver uma cultura do consumo. Apreciam a bebida, instituem rituais de socialização onde não pode faltar a cerveja, marcam os momentos de suas vidas pelo convívio com outros apreciadores da bebida. O consumo permite isso: criar laços entre indivíduos distintos a partir de um gosto comum. Sendo o consumo de algo associado ao lazer, prazer, tanto mais intensa será a preferência e a adesão à idéia.
Veja-se ao lado que a Brahma, lá por 1908, precisou contratar um médico, auto-denominado higienista, para combater os outros médicos higienistas e afirmar que a cerveja fabricada aqui atendia às restrições dos médicos temperantes, críticos do consumo de álcool. Iniciativas como a do folheto de 1908, muito lobby junto aos parlamentares e propaganda salvaram a imagem da cerveja como produto que se pode consumir sem culpa: nem álcool é, diziam! Ninguém saiu em defesa da aguardente que apanhou feio da propaganda temperante.
Abaixo, segue artigo sobre o lançamento da cerveja Brahma Chopp, em 1933, já em outro momento de crise. A ameaça ideológica contra a legitimidade de cerveja já havia passado, aliás, as cervejarias brasileiras superaram a crítica temperante com folga. O problema em 1933 era a recessão dura que encolheu o mercado consumidor. Com todo mundo sem dinheiro para passar horas em bares e pagar a conta, os marketeiros da Brahma inventaram uma forma de chope que se pode tomar em casa. Claro que não existe chopp engarrafado, o pessoal sabia bem disso. E daí? Os consumidores quiseram acreditar que, ao comprar uma cerveja pasteurizada tipo pilsner, bem aguada, estavam na verdade comprando o chopp que costumavam beber fora de casa. Assim, a cerveja invadiu o espaço do lar e se instalou para não mais sair.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Prêmio Iniciação Científica 2009: melhor trabalho na sessão de História










Hoje, 21 de outubro, foi a premiação. Auditório cheio, hino nacional e muitos discursos. Com tudo isso foi uma experiência ótima. Nem fazia idéia de que o CNPq oferece 21 mil bolsas de iniciação científica no país. Deste modo, os alunos bolsistas, somados aos voluntários fazem quase 40 mil alunos de graduação desenvolvendo trabalhos de iniciação científica. É bastante coisa e acho que pode ficar ainda maior.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Prêmio Iniciação Científica 2008-09

O programa de iniciação científica é concebido para oferecer uma oportunidade aos alunos de Graduação a fim de pensarem mais além das exigências dos cursos, as provas, as filas do xerox. Quase sempre funciona muito bem. Os alunos que participam das edições do famoso PIC crescem intelectualmente, ganham autonomia de pesquisa e, portanto, amadurecem como profissionais.
É verdade também que os iniciantes costumam exigir bastante dos professores que os orientam. Nada que não faça parte da vida acadêmica e costuma ser bastante prazeroso vê-los desenvolver seus trabalhos.
Hoje tive a grande satisfação de saber que Raquel Gontijo foi escolhida entre os avaliadores externos para receber um prêmio de destaque na edição do PIC/UNB 2008-09.
Quarta-feira volto aqui para postar a foto da premiação e um link com o trabalho da Raquel para vocês.
Parabéns, Raquel!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O Feminismo no Brasil e os homens públicos amigos das mulheres




Bertha Lutz como delegada do Brasil na conferência internacional de São Francisco, 1945.





Deputado Federal Nelson Carneiro





Este post destaca duas figuras públicas que dedicaram suas carreiras políticas à redução das desigualdades entre mulheres e homens no Brasil. Acima, Bertha Lutz representa o Brasil em uma das várias conferências internacionais que se seguiram à IIª Guerra e que discutiram a desigualdade dos direitos civis das mulheres no mundo.
Ao lado, uma imagem do jovem deputado baiano, Nelson Carneiro, responsável por importantes projetos de lei que alteraram a condição de inferioridade legal das mulheres no país. Em certo sentido, Nelson Carneiro deu continuidade ao esforço de Bertha neste assunto. Também como se vê, Bertha não se restringiu à sua tentativa de reforma dos direitos civis das mulheres enquanto exercia mandato na Câmara dos Deputados, e se manteve atuando em favor da causa por toda a vida. Já Nelson, insistiu toda a sua vida parlamentar para modificar o obsoleto direito civil brasileiro.
Se você quiser saber um pouco mais sobre os esforços de Bertha e de Nelson Carneiro para reformar a condição legal das mulheres, leia o artigo que fizemos, eu e Hildete Melo, e que está reproduzido abaixo. O artigo foi recentemente publicado na revista Estudos Feministas.

domingo, 19 de abril de 2009

Edward Hopper

Recentemente, conversava com um colega sobre a obcessão que certos artistas têm de se manter na mídia a todo custo, mesmo quando sua obra já não provoca emoção. Lembramos que, ao final da sua vida, o pintor norte-americano Edward Hopper pintou uma comovente composição onde representa a si e à sua mulher, Jo. No centro do palco, dois comediantes agradecem ou se despedem do público. Ou será que fazem os dois? O quadro se chama Two Comedians, e a reprodução que apresento neste post não faz jus à sua beleza. Sugiro aos curiosos procurá-lo na internet.
Espero saber a hora de me afastar do mundo público e dizer: _ Até mais, pessoal! Essa foi minha contribuição ao mundo.
Certamente, minha contribuição será bem modesta perto da obra de Hopper, que, à mesma época em sua vida, pintou a luz do sol sobre a parede de sua casa. Assim mesmo, sem complicação: apenas o registro da beleza da luz inundando as paredes nuas. Simplesmente genial!